segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O MANÍACO.

Jorge Cardoso


Maníaco

“Pois que entre todas neste mundo fui eleita

Para ser o desgosto de meu triste esposo,

E ao fogo arremessar não posso, qual se deita

Uma carta de amor, esse monstro asqueroso.”

Charles Baudelaire – Bênção.

O açougueiro me diagnosticou. Maníaco. Durante a minha vida me automediquei – ele disse. Você é um maníaco. Tive um episódio de depressão profunda. Só pensava merda. Não podia ver facas. Comia com colher. Fazia força para sair dessa. Só pensava em morte. Pensava no que eu não queria e sentia dor muscular intravenosa. Dormia mal e respirava as infecções do mundo. O budista cortou o meio da cabeça. O cristão cortou da cabeça para baixo. Depois da euforia satânica um sentimento de inadequação me lançava para um isolamento embalado a vácuo e me faltava energia para qualquer tarefa. Andar daqui até ali, por exemplo, me custava muito. Não gostava da luz, me incomodava, e me incomodava também o mínimo ruído. Não aguentava ler nem escrever. Maltratava sempre o mais fraco que estivesse mais próximo. Porque afinal de contas, dentro da minha cabeça, a culpa era deles. Em novembro me casei. Resolvi me batizar na igreja. Escolhi datas. 13 batismo, 18 casamento. Fui para as águas. Tomei heroína. Escondi as agulhas nas páginas do Livro Sagrado. Choro e esperma. Lágrimas difíceis. Destruí minha casa. Me mudei de apartamento. A mulher, ah, a mulher ficou grávida. Ia trabalhar nos correios. Dormia três horas por noite. Até que um dia odiei todas as crianças – o som que elas emitem, me fazia perder a mente. Fucinheira. A mulher tinha ciúmes. De quê? De mim? Deste possesso pelo diabo, este mondrongo? Não, claro que não. Tinha ciúmes do passado. Do que não viveu com o seu marido, agora, arrebentado, doente. O diamante falso que em vez de carvão virou a fuligem dos plásticos que não queimam. Não aguentei a estupidez, não da falta de paz, da falta da minha idéia de paz. Tranquei a porta do banheiro. Era Ano-novo. Tomei outro pico. Arrebentei dois vazos. A minha cabeça não queria mais aquilo. Eu não queria mais ter escolhido a vida que eu havia escolhido. A fúria das escolhas erradas. Não dava para voltar no tempo, ai Senhor, por que eu? Não dá mais. Culpei a mulher grávida, desta vez. Disse: “Agora chega, você destruiu a minha vida e eu vou botar fogo na casa” – e disse isso com calma. Ela segurava a barriga. Eu tranquei a porta do apartamento e disse: “Vamos queimar com os fogos lá fora. E com o grito daquele e daquele outro bêbado ali”. Injúria. Ló-ló. Acendi o isqueiro e queimei as cortinas. Lambia o teto. Ela ligou para o hospital. Ela apagou o fogo segurando a barriga. 7 meses grávida. Não usou da água, não. Bubble gum. Eu não queria nada daquilo. Quando acordei ainda estava por ali, mas sentado e com um avental, sujo de macarrão. Eu, quem comeu? O que me fez escolher a vida que eu não quis? És maníaco, mas vais pagar o preço – me disse o doutor Lars. Então resolvi me desintoxicar. E a queda foi maior do que a cera vagabunda que Dédalo pregou nas asas do filho. A vida de família não serve. Não se enganem. Não é sol. Pai contra filho, mulher contra marido. A vida de família é uma tristeza. É a espera para o tribunal. Pilastra grossa - a depressão química foi profunda. Disse que não era maníaco e parei com todos os medicamentos por conta própria. Pra dizer a verdade hoje voltei correndo para dois. Eu não sou maníaco, eu sou um mendigo, eu sou o filho de Jesus Cristo, eu sou a falha nas ações dos homens bons e o júbilo salivante dos maus – ah, bati com a cabeça na parede porque esta ladainha estava parecendo música do Raul Seixas. O meu filho, o meu segundo filho nasceu, e eu não senti nada. Foi aí que eu voltei para o hospital, aquelas pessoas caminhando esperando o remédio fazer efeito, Zyprexa 7.5, Fluanxol, Cipralex, e me disseram – Nada disso, o diagnóstico estava errado, você é mesmo um filho da puta. Ô burro escroto – todo mundo.
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E para recomeçar no ritmo, um conto do maníaco Jorge Cardoso, o homem que depois de vender a alma ao diabo volta à vida fazendo contos desolados como só ele sabe fazer, e orações católicas com tentativas de auto-descoberta como só ele sabe fazer em seu Blade Santa.

Já é 2011, e nós estamos dentro desta cápsula mundo para um futuro totalmente desconhecido. Um bom ano, para quem deseja um bom ano.

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