quinta-feira, 19 de julho de 2018

CORAÇÃO.



-Lembra daquele carinha de cabelos lisos e pintados de loiro, que escreve?
-Qual deles? Têm tantos assim nessa cidade.
-Benjamim. Escritor.
-Sei dele. Qual é?
-Lançou um romance por um edital.
-Ganhando um trocado.
-Recebeu, e agora vai escrever um livro sobre literatura e cultura pop.
-De lascar, heim!
-É, a porra do trabalho dos sonhos.
-Que terror daquele cara escrevendo sobre literatura.
-Que terror daquele cara e dos contos dele.
-São terríveis. Mas foram publicados!
-E tu já leu os poemas?
-Piores.
-Uma merda. Não acredito que tipos como esses são os futuros gênios da literatura na cidade.
-Não acredito que esses são a galera que tão escrevendo e pulicando e querendo de alguma forma acontecer!
-E nem posso falar disso com outras pessoas, que logo dizem que sou invejoso.
-É só o que falam hoje. Já notou que hoje em dia o cara tem que gostar de todo mundo, se você fala que não gosta de alguém, do que ele produz, isso é inveja, não é sua opinião, é simples inveja.
- É foda.


-E como vai teu romance?
-Tá indo bem. Dei uma parada nele agora, mas próximo ano vou continuar. É bonito ver o negócio tomando forma, parece um ectoplasma que sai das minhas mãos e fica vagando pela sala enquanto bato nas teclas daquele computador. Parece que fico envolto de uma névoa espessa e bonita. Me acalma.
-Isso é bom, cara.
-É, só sinto calma na minha alma quando escrevo.
-Isso é bonito.
-E teus poemas? E teu romance? Já tava quase acabando, não tava?
-Sim.
-E então?
-Parei.
-Por quê?
-Não consigo mais. Acho que não dá mais pra isso.
-Por quê?! Tu escrevia belos poemas, pareciam bailarinas dançando em um coração ensanguentado.
-O problema é esse, o coração. Não sei onde o meu foi parar.
-Só é possível escrever se tiver algo batendo forte dentro do peito. Nem que seja de dor. Mas tem que ter um coração batendo.
-Eu não sinto mais o meu. Não sinto que tenho um coração dentro do meu peito. Não sinto mais quase nada, só o cansaço de todos os dias juntos dentro da minha cabeça.
-Foda, cara. Você não pode parar de escrever. O que acha que é? Teu emprego, a falta de grana, mulher?
-Não sei. Não tô sentindo falta de nada, no momento. Mas não é isso. É só que não sinto mais meu coração batendo dentro de mim. Perdi as palavras que zuniam dentro da minha cabeça, que me colocavam pra ficar noites inteiras sentado escrevendo sem dormir. Eu ia pro trabalho no gás de chegar em casa e continuar assim, passava semanas.
-Quando tu entrava numas de escrever poemas e teus romances, ficava semanas sem aparecer aqui no bar ou em qualquer outro lugar.
-Mas agora eu passo as noites assistindo o corujão. E quando amanhece tô só o bagaço pra ir ao trabalho.
-Foda cara, mas vai ver isso vai passar, vai ver é só uma fase ruim.
-Não sei, acho que não. Me sinto morto e enterrado pra vida. Pode fazer minha lápide e colocar; poeta, com 460 poemas, quatro romances nunca publicados e um inacabado. Tô saindo com estilo, deixando obra póstuma.
Os dois riram no meio da multidão no bar, entre o barulho de outras vozes e copos se tocando. A vida dos dois rapazes e de tantos outros ali, continuaria por muito tempo, mesmo que em muitos momentos se sentissem mortos por dentro.

02/01/12 04:11 - 04:34

sexta-feira, 29 de junho de 2018

S.

Poucos realmente são aqueles
que sabem o que é estar
perdidos em alto mar,
e sentir que não se é capaz
de ser o capitão do próprio navio.

29/07/08 23:50

segunda-feira, 23 de abril de 2018

DIZEM QUE FOI UM SALVADOR

O cara apareceu em pleno 2018 falando que era um salvador. Falava que havia vindo de outro mundo, outra dimensão mais evoluída e trazia respostas, trazia uma nova forma de viver para quem quisesse. Acho que ninguém quis ser salvo nem muito menos fez pergunta a ele no início.
Ficava perambulando pelas ruas e falando alto, sozinho, filosofando. Quem tava sentado em banco de praça e se sentia incomodado levantava e ia embora. Quase ninguém dava muito ouvido no início. Alguns paravam e assistiam a cena.
Levaram tudo na boa enquanto era pouca gente, mas quando ele começou a ser seguido pelos mendigos de rua e gente pobre que trabalha muito mais nunca tem dinheiro, alguns resolveram que era melhor calar a boca do sujeito.
Dizem que ele fez uns milagres por aí também. Salvou umas crianças doentes que tavam pra morrer, curou uns cegos, colocou pra ver, botou uns surdos para escutar. Foi então que decidiram que era hora de prender o cara. 
Isso foi numa época muito estranha em que estávamos vivendo, onde quem saía da linha, o governo ia lá e mandava prender, depois era enforcar em praça pública, pra servir de exemplo.
Se você é mesmo poderoso, faz milagre e tudo, quero ver impedir isso”. Dizem que foi o que falaram antes de enforcá-lo na praça. Encheu de gente pra ver. O cara fez uns milagres aí, é o que falam, mas creio eu, que se arrependeu de tudo e desejou poder voltar no tempo e ficar com a boca fechada quando começaram a amarrar as mãos dele e colocar a corda em seu pescoço.
27/12/11 00:20 - 00:28

domingo, 1 de abril de 2018

Voltavime.

E deu-se que um dia eu o matei, por merecimento.
Torquato Neto

E daí que um dia eu a esqueci por completo.

Ou quis,
Ou fingi esquecer.

Eu sou um homem desesperado
Caminhando à margem do rio de minhas memórias.

05/05/2008 21:50

domingo, 4 de março de 2018

COMO SE FOSSE A ÚLTIMA VEZ.

Ela era meio cigana. Dizia que tinha nascido em uma tenda de circo, e que não ficava numa mesma cidade mais que três anos. Dava de pedir minha mão pra ler minha sorte nas linhas desenhadas na palma branca. Falava que parecia borracha a palma da minha mão. Nunca disse que eu seria um milionário. Falava que minha esposa morreria queimada em um acidente de carro. Eu dizia à ela que não sabia dirigir, nem muito menos pensava em me casar. Ela respondia que um dia sim. Nós nos amávamos como se cada foda fosse à última de nossas vidas. Era por isso que eu a amava. Era por isso e por muito mais que à amei durante um tempo de minha vida. Os 10 meses que passamos juntos e um tempo mais que levou para pensar que tinha esquecido. Mas nunca consegui por completo. Você só ama o que não pode mais tocar. Eu pensava. Nós andávamos pela praia à noite, dormíamos na areia agarrados e acordávamos com malucos tentando roubar nossas carteiras ou sapatos. Ou acordávamos com o sol quente do verão nos despertando e nos cegando os olhos. À amei desesperadamente enquanto estávamos juntos e um tempo depois. Quando ela foi embora, sai procurando nas cidades vizinhas. Mas nunca um sinal. Nunca soube seu nome de verdade. O que ficou pra mim foi o gosto de sua boca que ainda sinto na minha em noites que me banho em estrelas, ou o cheiro de seu cabelo que me vem às vezes quando bate o vendo. Nós nos amávamos como se aquela fosse a última vez em nossas vidas. E eu sabia, mesmo sem ela me dizer nada, que a qualquer momento poderia ser. Só se vive uma vez. Um dia acordei e ela havia sumido. Não deixou bilhete, nada, nem seu nome verdadeiro escrito em um papel. Cada vez era como se fosse a última. E eu adorava.
25/12/11 00:10 - 00:20

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

LENTAMENTE.

eu tenho tantas mortes de perfil
que por isso não morro,
sou incapaz de fazê-lo
Pablo neruda

Eu não morrerei de uma vez só
Estou morrendo do dia em que nasci,
Em processo lento de morte
Do dia em que fui posto neste mundo.

Eu não morrerei de uma vez
Tenho sim uma agulha cravada no peito
Que não faz sangrar normalmente
Mas onde é hemorragia contínua.

Não morrerei assim rápido,
Morro diariamente
Como quem sorri
Como quem sente alguma alegria.

Eu morro devagar,
Lento,
E ainda assim renascendo diariamente.

Morrerei como quem nasce
Dolorosamente.

E vou espalhando meus pedaços
Pelos quatro cantos da cidade
Ruas e praças
Postes e barres
E quem me vê andando
Nada sabe da dor que falo.


25/02/2008 23:22

domingo, 4 de fevereiro de 2018

04/02/2018

Ontem, nesse mesmo horário, eu estava na casa do meu amigo. Sentados, tomando uma baldada, nós conversávamos sobre os rumos do mundo e da humanidade. Não era nada pretensioso, nós só estávamos tentando entender o que está acontecendo. E no nosso ponto de vista, o mundo vai mal. Mais já vai mal a muito tempo também. Só está piorando. Talvez nunca existiu um momento em nossas vidas em que existiu tanto medo social como está acontecendo agora. Gente cada vez com mais medo de gente. Uma das coisas que mais se falam hoje em dia é “Não confie em ninguém”. Um dos conselhos no momento é “Não saia de casa, se não for extremamente necessário”. Gente com medo de gente. Gente com medo de andar na rua e sofrer algum tipo de violência. Mas não foi sempre assim. 20 anos atrás, era natural ver pessoas sentadas em calçadas em muitos bairros da cidade até tarde da noite. 20 anos atrás era normal você andar em um bairro estranho, pedir água em alguma casa, e ser atendido. Hoje em dia, falávamos, isso não existe mais, acabou. Não existem mais pessoas interessadas em ajudar algum estranho. Nós conversávamos.

Hoje no final da tarde eu sai pra pedalar. Queria quebrar pros 15 km. Preparei uma trilha e saí. Mas no quarto km a corrente da bike começou a cair. Coloquei, mas ela caiu de novo. Resolvi voltar, parei em uma praça, coloquei a corrente mais uma vez. Pedalei mais um quarteirão e de novo caiu. Parei em outra praça e coloquei mais uma vez a corrente. Passou um cara forte carregando o filho. Coloquei a corrente e fiquei sentado fumando, pra relaxar. O cara volta com o filho e me pergunta se o pneu tinha furado. Falei pra ele da corrente. Ele olha, fala que um lance lá tá frouxo e solta; “Eu moro bem ali, quer ir lá, eu tenho a chave, aperto aí pra você”. E eu fui. Fomos descendo a rua e minha cabeça ficou pensando, e se esse cara me roubar. Se ele for fechado com a galera por aqui, e pegar minha bike, meu celular. É o pensamento que fica na nossa cabeça, desconfie de todo mundo. Do outro lado ele estava falando que já teve o pneu da bicicleta furado no meio do caminho e pediu ajuda numa oficina e não foi atendido, então aprendeu a fazer sozinho. “Macho, o cara não quis me ajudar, mas eu não me importo em ajudar quem eu vejo que tá com problema”. Chegamos na casa do cara, ele me mostra suas bicicletas, uma é muito pesada pra mim, nunca conseguiria andar com ela. Ele vem com a chave, aperta os parafusos. Vem com uma bomba, calibra os pneus. Me oferece água pra lavar as mãos e me fala como volto pra minha rota. Na despedida, solta; “Precisando é só voltar aqui”. E eu respondo, “Se minha corrente cair por aqui de novo, passo aqui na tua casa”. Me despeço e volto pra casa pedalando.

Diário de Bordo