sábado, 18 de novembro de 2017

O HOMEM COM CABEÇA DE CACHORRO.

O homem com cabeça de cachorro nasceu de parto normal.
Homem, dois braços, duas pernas, corpo humano, e uma cabeça de cachorro.
Nasceu de pai e mãe normais.
Criado pelos pais, recém-nascido, receberam proposta para viver e trabalhar em circo. Nunca aceitaram. Somente quando os pais morreram que passou a comprar a própria comida, vendendo a imagem de sua cabeça de cachorro por alguns trocados nas feiras exibicionistas.
Sua voz poucos ouviram. Quando abria a boca na tentativa de expulsar som, alguns jogavam pedra, corriam de medo, e existiam os que desmaiavam. Assim, aprendeu a comunicar-se por gestos.
Nunca teve amigos. Sempre viveu sozinho. Nunca foi amado por mulher alguma que não fosse sua mãe.
Vivia sozinho no antigo casebre dos pais mortos. As crianças iam até lá jogar pedras nas janelas onde não haviam mais vidros, só panos servindo de cortina.
O homem com cabeça de cachorro morreu sozinho já passando dos 30 anos, sentado em uma poltrona, de frente para uma TV desligada.
24/11/11 03:10 - 03:18

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A TARDE.

Leões rugindo nas ruas
mulheres flutuando nas calçadas
homens espreitam.

3 meninos vestindo camisas de guerra
levam escrito no peito
exército de Deus
enquanto fazem malabares no sinal
para ganhar uns trocados.

Em algum lugar do mundo
um vulcão entra em processo de erupção,
 do lado de cá,
as horas se arrastam,
e eu me cego olhando o sol
por minutos eternidades.

19/02/2008 13:32

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

CORAGEM.

 -E então, você vai fazer?
-Sei não...
-Deixa de ser frouxo, tô com a arma ali no carro, estacionei na rua de trás.
-O que eu ganho com isso?
-Te dô uma grana, e mais o que tu quiser na cama.
-Eu tenho emprego. E você já faz o que quero na cama.
-Faço mais.
-Tem uma coisa que eu sempre quis que fizessem.
-Fala, eu faço.
-Faz nada, nenhuma teve coragem.
-Se você fizer a tua parte eu faço sim, o que é?
-Nãm, nenhuma teve coragem.
-Eu faço.
-Conversa.
-Verdade, juro. Diz o que é.
-Você é uma mentirosa.
Nisso dou um tapa na cara dela. Faz barulho e ela se treme toda, bate com o corpo no copo, na garrafa, derrama cerveja. O bar inteiro olha. São sete caras e mais duas donas que estão acostumados com tudo, mas sempre reparam, nunca perdem.
-Seu filho da puta – ela diz. Está com raiva, os olhos arregalados, ódio puro. – Você não devia me tratar assim, você não pode.
-Ah, cala a boca. Deixa de drama, você tá acostumada com isso, leva do teu marido, por isso quer que eu mate o sujeito, já deve tá acostumada.
-Seu veado de merda. Tu num pode me tratar assim. Ele é meu marido, você é só um qualquer pra quem eu dô.
-Cala a boca.
-Eu vou te matar, seu merda.
-Besteira.
-Eu vou te matar.
-Se você tem tanta coragem pra me matar, então porque não vai lá e mata primeiro o corno do teu marido?! Besteira, você num tem coragem de nada.
E dou outro tapa. Ela levanta me olhando, o ódio puro lá, vai ser difícil dissipar. Caminha pra saída, de costas pra rua, me olhando fixamente. Fico sentado bebendo e fumando. Minutos depois é que a vontade bate. Levanto e vou ao banheiro. Abro a porta e entro. Fede muito. Mijo e merda. E mesmo assim levanto a tampa. Um trabalho bem feito. Olhando assim parece que existem três camadas. De pessoas diferentes? Abaixo a tampa sabendo que nem deveria ter levantado, quando se entra em banheiro de lugar como esse, se a tampa estiver abaixada é porque tem merda e não deram a descarga. Puxo a corda. Sem água. Que lugar de bosta! O pior é que agora não posso deixar pra lá, já enviei a mensagem que minha merda sairia, não dá pra enviar outra dizendo que agora fique guardada. Vou ao banheiro feminino. Olho se não tem ninguém, entro. A tampa levantada. Um balde com água ao lado. Sento e faço o serviço. A merda vai descendo mole. Depois me limpo e derramo o balde. O fedor sobe. Volto pra mesa. Peço mais uma cerveja. E é depois que o cara deixa na mesa que ela entra de novo no bar. Segurando a arma.
 -Seu filho da puta.
Ela diz. Nisso levanta o braço e começa a atirar. Me jogo na mesa derrubando copo, garrafas e bebida. Tento me proteger com os braços cobrindo a cabeça como se isso fosse resolver algo. Os barulhos são rápidos e logo acabam. Ela manda um tambor inteiro e nenhuma acertou em mim. Milagre, pode ser.
Logo depois todos saem correndo. Nenhum ferido. Essa louca poderia ter me matado ou qualquer pessoa neste lugar. Todos saem correndo, inclusive o dono.
Ela continua me olhando com o braço erguido. Depois o abaixa. Ódio pra caralho. Então ela dá de costas e vai embora.
Acreditei que ela não tivesse coragem de fazer algo assim, já que tinha me pedido pra dar fim no marido dela. Acreditei que não teria coragem de matar ninguém. Mas estava enganado, ela só não tem coragem é de matar ele.
Levanto ainda com o coração aos pulos. Saio do bar sem pagar, só continuo andando. Pelo menos ela serviu pra algo. Caminho pensando que poderia estar morto. E que foi uma decisão sábia não ter esperado muito pra ir ao banheiro.

16/11/11 - 02:54


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O PERIGO.

Acordo e já é dia, o sol entra pelas cortinas. Não sei que horas são. Então viro pra mesinha ao lado da cama e vejo no relógio digital em cores vermelhas que já passam das nove. Olho pro quarto espaçoso. Me sinto cansado. Ontem bebi muito. Sei que ela me trouxe pra cá, e já foi embora. Provavelmente pro trabalho. Não deixou recado no travesseiro ao lado, como nos filmes. Levanto da cama. Caminho um pouco pelo quarto, vou até a janela e vejo a rua. Um garoto passa de bicicleta. Vou ao banheiro. Espaçoso. Essa casa é boa, ela deve ter um bom emprego. Lavo o rosto. Saio. Caminho pelo corredor e encontro a cozinha, abro a geladeira. Ela tem um bom emprego. O que a fez me trazer aqui ontem? O que queria com um cara como eu? E ela foi embora e me deixou em sua casa. Caminho até a sala e sento no sofá, me esparramando como se isso tudo fosse meu por alguns minutos. Mas nada disso poderia ser meu, nada disso foi feito para um cara como eu. Sei que poderia me acostumar com isso, e então é onde sempre sei que está o perigo. Fito o teto e penso em cigarro. Levanto, volto pro quarto. Procuro e não encontro. Tenho que sair pra comprar. E então me deito de novo. E o sono vem novamente.


Acordo e vejo no relógio que dormi mais de uma hora. Levanto, vou ao banheiro, embaixo do chuveiro quase não penso em nada. Quase não penso em ficar por aqui o dia inteiro, depois sair, comprar algumas coisas, preparar um jantar pra ela quando chegar à noite. Quem sabe garantir sexo e hospedagem de graça por algumas semanas. Quase não penso que poderia morar nessa casa pro resto de minha vida enquanto ela vai trabalhar. Com aquela TV grande pendurada na parede, com aquela geladeira cheia de comida e bebida. Quase não estou pensando nisso enquanto me visto e saio do quarto. Caminho até a sala. Abro a porta e o sol cega meus olhos por um momento que parece uma eternidade.


12/01/2010 00:17 – 00:29

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A PEDRA.

Caminhava e sentia com a mão
O silêncio de minha pedra de estimação
Que levava dentro de meu bolso.

Meus olhos escorregaram até meus dedos,
Assim eu via tudo a cada minuto que existia,
E isso levou horas
Levou inteiro o dia.

A pedra cresceu no bolso,
Tive que carregar dentro de uma bolsa
De tão grande que ficou.

Dentro da bolsa a pedra explodiu,
Soltando água que nela existia
E comigo, senti tudo mais pesado.

16/01/2008 18:31

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

ILUMINURAS.

III

Nos bosques tem um pássaro, você pára e cora com seu coro.
Tem um relógio que não toca nunca.
Tem uma brecha no gelo com um ninho de bichos brancos.
Tem uma catedral que sobe e um lago que desce.
Tem uma pequena carruagem abandonada na moita, ou que passa correndo, decorada.
Tem uma trupe em trajes de comédia, espiada pela trilha da floresta.
E então, quando você tem fome e sede, tem sempre alguém que te manda passear.

IV

Eu sou o santo, rezando no terraço, — como os animais pacíficos pastando junto ao mar da Palestina.
Eu sou o sábio na poltrona sombria. Os galhos e a chuva se jogam contra a vidraça da biblioteca.
Eu sou o andarilho da grande estrada entre os bosque anões; o rumor das represas cobre meus passos. Me demoro vendo a triste fuligem dourada do pôr-do-sol.
Eu bem podia ser a criança abandonada no cais de partida pro alto mar, o caipira rodando as alamedas, sua cabeça roçando o céu.
Os caminhos são ásperos. Montesinhos se enchem de giestas. O ar está parado. Que longe os pássaros e as fontes! Isso só pode ser o fim do mundo, avançando.


CIDADE

Sou um efêmero e não muito descontente cidadão de uma metrópole que julgam moderna porque todo estilo conhecido foi excluído das mobílias e do exterior das casas bem como do plano da cidade. Aqui você não nota rastros de nenhum monumento de superstição. A moral e a língua estão reduzidas às expressões mais simples, enfim! Estes milhões de pessoas que nem têm necessidade de se conhecer levam a educação, o trabalho e a velhice de um modo tão igual que sua expectativa de vida é muitas vezes mais curta do que uma estatística maluca encontrou para os povos do continente. Assim como, de minha janela, vejo novos espectros rolando pela espessa e eterna fumaça de carvão, — nossa sombra dos bosques, nossa noite de verão! — as novas Erínias, na porta da cabana que é minha pátria e meu coração, já que tudo aqui parece isto, — Morte sem lágrimas, nossa filha ativa e serva, um Amor desesperado, e um Crime bonito uivando na lama da rua.

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Iluminuras - Arthur Rimbaud 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

XENIA.

Meu tio se matou três dias antes do meu nascimento. Deu um tiro na cabeça com a arma velha e enferrujada que meu pai tinha comprado quando era moço. Minha mãe só ficava chorando, mas segurou firme. Me segurou firme por três dias. Então nasci.

Uma vez meu pai me perguntou por que eu tinha saído pra esse mundo, disse que era um lugar ruim de viver. Eu perguntei então porque ele tinha me colocado dentro da minha mãe.

Meus pais não se falavam muito. Meu pai quando bebia, me batia quando chegava em casa. Na escola, a maior parte dos garotos não gostavam de mim, muitos queriam me bater nos intervalos e no fim das aulas. Quase todos os dias eu tinha que enfrentar um cara que era maior que eu. Quase todos os dias eu tinha que provar que eu era mais forte do que os outros. Nem sempre eu vencia, mas batia neles também. Foi assim que começaram a me respeitar. Ou simplesmente começaram a esquecer de mim.

Comecei a roubar nos supermercados, colocava coisas pequenas dentro dos bolsos, dentro da bermuda, da camisa, e quando eles sacavam de me pegar eu corria feito um louco pelas ruas quase vazias ou às vezes lotadas.

Uma vez me pegaram, me levaram pra casa. Meus pais estavam lá. Não falaram comigo, não disseram nada. Era uma época ruim como qualquer outra, como todas as outras épocas de minha vida sempre foram. Meu pai estava sem trabalho, ficava em casa durante o dia, fumando, até que todo o dinheiro acabou e ele não tinha mais pro cigarro. Saiu e encontrou outro emprego. Era faxineiro em uma escola. Ele chegava em casa todo dia e dizia que odiava sua vida, que odiava seu trabalho, que preferia morrer, que queria morrer a continuar com aquilo, mas nunca fez nada como seu irmão fez, o que sempre me levou a pensar sobre a estranha necessidade que muitos de nós temos de continuar vivos, mesmo estando em situações nas quais nos sentimos completamente mortos por dentro.

O tempo foi passando e eu não sentia que estivesse mudando algo dentro de mim. Eu só passava meu tempo. Os garotos deixaram de me perturbar, mas eu não tinha amigos, ficava sozinho andando no pátio da escola enquanto os outros jogavam bola.

Um dia um garoto chegou falando que um tornado estava se movendo, que chegaria em nossa cidade naquela tarde. Ninguém nunca tinha visto algo assim, era só coisa de filme. Nós éramos crianças. Ficamos lá, depois da aula, esperando o tornado chegar.

24/10/2011 01:50

Andreas Duscha, Twister