domingo, 2 de setembro de 2018

SUGAR.

à e.

De tuas mãos escorre o silêncio do teu sono
que aos poucos me faz companhia neste domingo.
Vejo tuas letras escritas no papel
e teu rosto em imagem na memória me aparece.
Tua voz em lacunas em minha imaginação.
 Teu cheiro eu procuro na xícara do café.

Tento então tolamente recriar teu nome,
que aos poucos vai me surgindo nas paredes na memória.
Tento recriar teu rosto
que me surgiu nublado no sonho da noite passada,
enquanto leio tuas letras
que me vieram suspensas
com gosto de lágrimas,
neste papel tão branco.

25/08/2008 21:59

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

DIRTY DREAM #5

Saio de casa e vejo que a tarde não está ensolarada. Caminho por ruas desconhecidas, calmas, praticamente vazias de gente. No centro, encontro com um grupo de pessoas que estão paradas em uma praça. Não sei pelo que esperam. Me junto a eles, ando pelo grupo, converso com algumas pessoas. Vejo Sharon em um canto. Usa um vestido longo e preto de mangas longas. Carrega um violão nas costas. Acendo um cigarro e fumo contemplando a tarde sem sol, sem calor. Alguns torcedores de um time surgem, vão passando pelo grupo. Alguns gritam ao ar, outros jogam garrafas e latas nos cantos da rua. Permanecemos conversando e fumando enquanto o grupo de torcedores usando camisas vermelhas e brancas vão passando. Então um rapaz fala que seria interessante ir até um casarão abandonado que fica próximo de onde estamos. Começamos a andar pela pista, onde não passam carros. Vamos caminhando e conversando. Escuto Sharon começar a tocar ao violão, Tarifa.


Chegamos ao casarão abandonado. Entramos. As pareces pichadas e com tinta descascando. O grupo se espalha pela casa abandonada que parece um típico casarão de filme de terror. Caminho por salas e quartos vazios. O lugar está em decomposição. Vejo a grande escada e subo. No primeiro andar da casa, cruzo uma sala grande e caminho até chegar a um quarto. Lá dentro, vejo Sharon sentando de frente a um piano negro. Olho para ela da porta. Ela me devolve o olhar com um sorriso. I Love You But I´m Lost. Digo. Ela me sorri. Dou de costas e começo a ouvir as primeiras notas sento tocadas no piano. Quando chego à sala, escuto sua voz; “You read the answers by the shadows on the wall, we could be great”.

(Diário de Sonhos)

segunda-feira, 30 de julho de 2018

THE GOLD FIRE SESSIONS.

Uma galera que eu gosto na música tá se preparando pra lançar trabalho novo. Tô só por aqui sacando as coisas e esperando. E a notícia boa nesse fim de semana foi, "I Don´t Want: The Gold Fire Sessions", novo trabalho da Santigold, cantora muito querida por este aqui que escreve.

Já acompanho o trabalho dela faz um tempo, e é claro, que a cada lançamento, fico sempre na espera do que irá ser lançado nos próximos anos. E assim estava sendo, até este fim de semana, onde de surpresa, a cantora disponibilizou na faixa, tanto no Spotify, quando no youtube, seu novo trampo.

Como ela mesma descreve no tube, "I Don't Want: The Gold Fire Sessions" é um projeto que desenvolveu com o DJ e produtor Dre Skull. Gravado de maneira espontânea em um pouco mais de uma semana. O trabalho flerta entre o reggae, dancehall e música afro caribenha.

Passei o fim de semana já ouvindo o som novo da garota. São 10 canções dançantes, repletas de colagens sonoras e efeitos. As primeiras canções já tão me pegando. Talvez não seja um disco tão inspirado como seu trabalho anterior; "99 Cents" de 2016. Mesmo assim, as músicas fluem muito bem, e as melodias são boas. Santigold ressurge cantando em um trabalho que realmente aparece de maneira espontânea, livre, um puro prazer de fazer música. E é claro que é muito bom ouvir algo novo de Santi.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

CORAÇÃO.



-Lembra daquele carinha de cabelos lisos e pintados de loiro, que escreve?
-Qual deles? Têm tantos assim nessa cidade.
-Benjamim. Escritor.
-Sei dele. Qual é?
-Lançou um romance por um edital.
-Ganhando um trocado.
-Recebeu, e agora vai escrever um livro sobre literatura e cultura pop.
-De lascar, heim!
-É, a porra do trabalho dos sonhos.
-Que terror daquele cara escrevendo sobre literatura.
-Que terror daquele cara e dos contos dele.
-São terríveis. Mas foram publicados!
-E tu já leu os poemas?
-Piores.
-Uma merda. Não acredito que tipos como esses são os futuros gênios da literatura na cidade.
-Não acredito que esses são a galera que tão escrevendo e pulicando e querendo de alguma forma acontecer!
-E nem posso falar disso com outras pessoas, que logo dizem que sou invejoso.
-É só o que falam hoje. Já notou que hoje em dia o cara tem que gostar de todo mundo, se você fala que não gosta de alguém, do que ele produz, isso é inveja, não é sua opinião, é simples inveja.
- É foda.


-E como vai teu romance?
-Tá indo bem. Dei uma parada nele agora, mas próximo ano vou continuar. É bonito ver o negócio tomando forma, parece um ectoplasma que sai das minhas mãos e fica vagando pela sala enquanto bato nas teclas daquele computador. Parece que fico envolto de uma névoa espessa e bonita. Me acalma.
-Isso é bom, cara.
-É, só sinto calma na minha alma quando escrevo.
-Isso é bonito.
-E teus poemas? E teu romance? Já tava quase acabando, não tava?
-Sim.
-E então?
-Parei.
-Por quê?
-Não consigo mais. Acho que não dá mais pra isso.
-Por quê?! Tu escrevia belos poemas, pareciam bailarinas dançando em um coração ensanguentado.
-O problema é esse, o coração. Não sei onde o meu foi parar.
-Só é possível escrever se tiver algo batendo forte dentro do peito. Nem que seja de dor. Mas tem que ter um coração batendo.
-Eu não sinto mais o meu. Não sinto que tenho um coração dentro do meu peito. Não sinto mais quase nada, só o cansaço de todos os dias juntos dentro da minha cabeça.
-Foda, cara. Você não pode parar de escrever. O que acha que é? Teu emprego, a falta de grana, mulher?
-Não sei. Não tô sentindo falta de nada, no momento. Mas não é isso. É só que não sinto mais meu coração batendo dentro de mim. Perdi as palavras que zuniam dentro da minha cabeça, que me colocavam pra ficar noites inteiras sentado escrevendo sem dormir. Eu ia pro trabalho no gás de chegar em casa e continuar assim, passava semanas.
-Quando tu entrava numas de escrever poemas e teus romances, ficava semanas sem aparecer aqui no bar ou em qualquer outro lugar.
-Mas agora eu passo as noites assistindo o corujão. E quando amanhece tô só o bagaço pra ir ao trabalho.
-Foda cara, mas vai ver isso vai passar, vai ver é só uma fase ruim.
-Não sei, acho que não. Me sinto morto e enterrado pra vida. Pode fazer minha lápide e colocar; poeta, com 460 poemas, quatro romances nunca publicados e um inacabado. Tô saindo com estilo, deixando obra póstuma.
Os dois riram no meio da multidão no bar, entre o barulho de outras vozes e copos se tocando. A vida dos dois rapazes e de tantos outros ali, continuaria por muito tempo, mesmo que em muitos momentos se sentissem mortos por dentro.

02/01/12 04:11 - 04:34

sexta-feira, 29 de junho de 2018

S.

Poucos realmente são aqueles
que sabem o que é estar
perdidos em alto mar,
e sentir que não se é capaz
de ser o capitão do próprio navio.

29/07/08 23:50

segunda-feira, 23 de abril de 2018

DIZEM QUE FOI UM SALVADOR

O cara apareceu em pleno 2018 falando que era um salvador. Falava que havia vindo de outro mundo, outra dimensão mais evoluída e trazia respostas, trazia uma nova forma de viver para quem quisesse. Acho que ninguém quis ser salvo nem muito menos fez pergunta a ele no início.
Ficava perambulando pelas ruas e falando alto, sozinho, filosofando. Quem tava sentado em banco de praça e se sentia incomodado levantava e ia embora. Quase ninguém dava muito ouvido no início. Alguns paravam e assistiam a cena.
Levaram tudo na boa enquanto era pouca gente, mas quando ele começou a ser seguido pelos mendigos de rua e gente pobre que trabalha muito mais nunca tem dinheiro, alguns resolveram que era melhor calar a boca do sujeito.
Dizem que ele fez uns milagres por aí também. Salvou umas crianças doentes que tavam pra morrer, curou uns cegos, colocou pra ver, botou uns surdos para escutar. Foi então que decidiram que era hora de prender o cara. 
Isso foi numa época muito estranha em que estávamos vivendo, onde quem saía da linha, o governo ia lá e mandava prender, depois era enforcar em praça pública, pra servir de exemplo.
Se você é mesmo poderoso, faz milagre e tudo, quero ver impedir isso”. Dizem que foi o que falaram antes de enforcá-lo na praça. Encheu de gente pra ver. O cara fez uns milagres aí, é o que falam, mas creio eu, que se arrependeu de tudo e desejou poder voltar no tempo e ficar com a boca fechada quando começaram a amarrar as mãos dele e colocar a corda em seu pescoço.
27/12/11 00:20 - 00:28

domingo, 1 de abril de 2018

Voltavime.

E deu-se que um dia eu o matei, por merecimento.
Torquato Neto

E daí que um dia eu a esqueci por completo.

Ou quis,
Ou fingi esquecer.

Eu sou um homem desesperado
Caminhando à margem do rio de minhas memórias.

05/05/2008 21:50