sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A PEDRA.

Caminhava e sentia com a mão
O silêncio de minha pedra de estimação
Que levava dentro de meu bolso.

Meus olhos escorregaram até meus dedos,
Assim eu via tudo a cada minuto que existia,
E isso levou horas
Levou inteiro o dia.

A pedra cresceu no bolso,
Tive que carregar dentro de uma bolsa
De tão grande que ficou.

Dentro da bolsa a pedra explodiu,
Soltando água que nela existia
E comigo, senti tudo mais pesado.

16/01/2008 18:31

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

ILUMINURAS.

III

Nos bosques tem um pássaro, você pára e cora com seu coro.
Tem um relógio que não toca nunca.
Tem uma brecha no gelo com um ninho de bichos brancos.
Tem uma catedral que sobe e um lago que desce.
Tem uma pequena carruagem abandonada na moita, ou que passa correndo, decorada.
Tem uma trupe em trajes de comédia, espiada pela trilha da floresta.
E então, quando você tem fome e sede, tem sempre alguém que te manda passear.

IV

Eu sou o santo, rezando no terraço, — como os animais pacíficos pastando junto ao mar da Palestina.
Eu sou o sábio na poltrona sombria. Os galhos e a chuva se jogam contra a vidraça da biblioteca.
Eu sou o andarilho da grande estrada entre os bosque anões; o rumor das represas cobre meus passos. Me demoro vendo a triste fuligem dourada do pôr-do-sol.
Eu bem podia ser a criança abandonada no cais de partida pro alto mar, o caipira rodando as alamedas, sua cabeça roçando o céu.
Os caminhos são ásperos. Montesinhos se enchem de giestas. O ar está parado. Que longe os pássaros e as fontes! Isso só pode ser o fim do mundo, avançando.


CIDADE

Sou um efêmero e não muito descontente cidadão de uma metrópole que julgam moderna porque todo estilo conhecido foi excluído das mobílias e do exterior das casas bem como do plano da cidade. Aqui você não nota rastros de nenhum monumento de superstição. A moral e a língua estão reduzidas às expressões mais simples, enfim! Estes milhões de pessoas que nem têm necessidade de se conhecer levam a educação, o trabalho e a velhice de um modo tão igual que sua expectativa de vida é muitas vezes mais curta do que uma estatística maluca encontrou para os povos do continente. Assim como, de minha janela, vejo novos espectros rolando pela espessa e eterna fumaça de carvão, — nossa sombra dos bosques, nossa noite de verão! — as novas Erínias, na porta da cabana que é minha pátria e meu coração, já que tudo aqui parece isto, — Morte sem lágrimas, nossa filha ativa e serva, um Amor desesperado, e um Crime bonito uivando na lama da rua.

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Iluminuras - Arthur Rimbaud 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

XENIA.

Meu tio se matou três dias antes do meu nascimento. Deu um tiro na cabeça com a arma velha e enferrujada que meu pai tinha comprado quando era moço. Minha mãe só ficava chorando, mas segurou firme. Me segurou firme por três dias. Então nasci.

Uma vez meu pai me perguntou por que eu tinha saído pra esse mundo, disse que era um lugar ruim de viver. Eu perguntei então porque ele tinha me colocado dentro da minha mãe.

Meus pais não se falavam muito. Meu pai quando bebia, me batia quando chegava em casa. Na escola, a maior parte dos garotos não gostavam de mim, muitos queriam me bater nos intervalos e no fim das aulas. Quase todos os dias eu tinha que enfrentar um cara que era maior que eu. Quase todos os dias eu tinha que provar que eu era mais forte do que os outros. Nem sempre eu vencia, mas batia neles também. Foi assim que começaram a me respeitar. Ou simplesmente começaram a esquecer de mim.

Comecei a roubar nos supermercados, colocava coisas pequenas dentro dos bolsos, dentro da bermuda, da camisa, e quando eles sacavam de me pegar eu corria feito um louco pelas ruas quase vazias ou às vezes lotadas.

Uma vez me pegaram, me levaram pra casa. Meus pais estavam lá. Não falaram comigo, não disseram nada. Era uma época ruim como qualquer outra, como todas as outras épocas de minha vida sempre foram. Meu pai estava sem trabalho, ficava em casa durante o dia, fumando, até que todo o dinheiro acabou e ele não tinha mais pro cigarro. Saiu e encontrou outro emprego. Era faxineiro em uma escola. Ele chegava em casa todo dia e dizia que odiava sua vida, que odiava seu trabalho, que preferia morrer, que queria morrer a continuar com aquilo, mas nunca fez nada como seu irmão fez, o que sempre me levou a pensar sobre a estranha necessidade que muitos de nós temos de continuar vivos, mesmo estando em situações nas quais nos sentimos completamente mortos por dentro.

O tempo foi passando e eu não sentia que estivesse mudando algo dentro de mim. Eu só passava meu tempo. Os garotos deixaram de me perturbar, mas eu não tinha amigos, ficava sozinho andando no pátio da escola enquanto os outros jogavam bola.

Um dia um garoto chegou falando que um tornado estava se movendo, que chegaria em nossa cidade naquela tarde. Ninguém nunca tinha visto algo assim, era só coisa de filme. Nós éramos crianças. Ficamos lá, depois da aula, esperando o tornado chegar.

24/10/2011 01:50

Andreas Duscha, Twister

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

POEMAS DE PAULO HENRIQUES BRITTO.

III

Nem tudo que tentei perdi. Restou
a intenção de ser alguém ou algo
que não se pode ser, mas só ter sido;
restou a tentação do nada, nunca
tão forte que vencesse esse meu medo
que é a coisa mais honesta que há em mim.
Sobrou também o hábito vadio
de me virar do avesso e esmiuçar
as emoções como quem espreme espinhas.
Mas nada disso dói; a dor é um ácido
que ao mesmo tempo que corrói consola,
que arde mas perfuma. Isso que eu sinto
é uma coceira que vem lá de dentro
e me destrói sem dignidade alguma.

VII

A consistência exata dessa insônia,
a forma certa desse medo, o gesto
seco que rejeita essa necessidade
abjeta de ser quem não se é —
a aceitação completa da vontade
insuportável de querer o que
se quer, a sede obscena de tragar
o copo junto com a bebida — coisas
tão simples, que só pedem a paciência
sábia dos que aprenderam a se aturar,
a santa complacência de quem lambe
as próprias chagas e aprecia o gosto —
não por requinte de nojo, mas só
por nunca haver provado outro sabor.


Duas bagatelas

I

O que conheço de mim
é quase só o que sei,
e o que sei é quase só
o que não quero saber.
Resta saber se isso tudo
é só o começo ou se é o fim
ou — o que é pior que tudo —
se é tudo.

II

Então viver é isso,
é essa obrigação de ser feliz
a todo custo, mesmo que doa,
de amar alguma coisa, qualquer coisa,
uma causa, um corpo, o papel
em que se escreve,
a mão, a caneta até,
amar até a negação de amar,
mesmo que doa,
então viver é só
esse compromisso com a coisa,
esse contrato, esse cálculo
exato e preciso, esse vício,
só isso.

GERAÇÃO PAISSANDU

Vim, como todo mundo,
do quarto escuro da infância,
mundo de coisas e ânsias indecifráveis,
de só desejo e repulsa.
Cresci com a pressa de sempre.

Fui jovem, com a sede de todos,
em tempo de seco fascismo.
Por isso não tive pátria, só discos.
Amei, como todos pensam.
Troquei carícias cegas nos cinemas,
li todos os livros, acreditei
em quase tudo por ao menos um minuto,
provei do que pintou, adolesci.

Vi tudo que vi, entendi como pude.
Depois, como de direito,
endureci. Agora a minha boca
não arde tanto de sede.
As minhas mãos é que coçam —
vontade de destilar depressa, antes que esfrie,
esse caldo morno de vida.

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Paulo Henriques Britto - Mínima Lírica
Companhia das Letras

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

OS MESMOS DIAS.

A noite me espia vazia
Falando que logo já será dia.
O sono que me vem agora lento como maré,
Não é a onda pesada que tentará me derrubar pela manhã.

Assim, sigo tentando destruir as horas do relógio
Sigo tentando destruir o medo no peito
Sigo tentando destruir este vazio de todos os dias,
Enquanto à noite me espia silenciosamente vazia
Me dizendo que logo, logo já será um novo dia.

29/07/2008 23:46

sábado, 29 de julho de 2017

LEIA ABAIXO UM DOS POEMAS.

Recebei as nossas homenagens



Único homem acordado nesta noite, o apartamento
apertado parece imenso; vagueio desacordado de tudo
e sobretudo em desacordo comigo, único homem
acordado no mundo; o teatro estreito assim vazio



parece largo, perambulo absoluto, príncipe estragado;
não dormir é meu palácio; a Dinamarca, diminuta,
parece dilatar-se enquanto palmilho o ar do quarto.
Vem o dia, e o fantasma de meu pai não me aparece.



Da vista e do visto



Mais uma vez é maio; não o levaste contigo;
horas se escrevem hoje com o lápis de sempre,
ultramar e um tanto adolescente; não o levaste,
maio, mês de meu aniversário, quando a melancolia
é menos nítida que a linha dos morros e dos edifícios;

vento sol amendoeiras, é como te digo, não levaste

maio e mesmo os meus olhos estão aqui, comigo; algo,
porém, sei que se foi contigo; que coisa era, não sei,
e, ainda que pequena, faz falta, era minha; coincidência
ou não, procuro e não encontro a minha antiga alegria.



Leia abaixo um dos poemas



Ana diz as palavras faltam quando
mais se precisa delas são apenas a sombrinha
do equilibrista, digo a Ana tantas vezes
sobrevivemos só por saber os nomes

não caímos não morremos, só quem nunca

esteve bambo no trapézio despreza o equilíbrio
zomba do vento, são as palavras que botam
a gente no alto, onde é melhor viver



de onde é melhor cair.



Romântica

Quantos de nós quereriam viver não a vida

mas o filme, quando a vida não é vida
e não se morre na morte e o que finda
não apodrece porque logo é outro set;

vida em que se passa a salvo de um dia

a outro sem que se viva a semana entre
eles; viver sob as ordens de um destino
por escrito que sabemos previamente



e o vivemos sem vivê-lo. A força dos fortes
que voam; bandos que matam sem matar;
fracos que não desistem; bravos que no fim
se vingam. Tantos de nós desejaríamos

ter vivido e ter amado amores desgraçados,

cuja beleza, tão bela, era mais bela que
a dor e a dor era mais a beleza que o doer.
Queríamos que fosse não a vida, mas

a cena e a canção crescendo no momento

certo da alegria, no instante do beijo,
no clímax. Close: quando errássemos,
bem na hora, a voz de um Deus dizendo



corta!
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4 poemas de Eucanaã Ferraz, de seu livro "Sentimental".

sábado, 22 de julho de 2017

OUTROS DESTINOS.

 

Eu tinha alguma esperança e aí tudo morreu como um demônio em chamas.
Camila Fraga.
Era fim de tarde. Ela tinha me pedido para encontrá-la na velha praça. Quando cheguei, já tava lá sentada fumando um. Os brinquedos velhos e enferrujados que brincamos anos antes. Agora já parecia que muito tempo tinha passado. Aproximei e sentei ao seu lado.
-Como é que tá?
-Quebrada. Como se tivessem retirado algo de mim. De dentro de mim. Como se eu tivesse nascido com asas e tivessem arrancado de mim usando só as mãos.
Fiquei em silêncio. Peguei meu cigarro e acendi.
-Acho que entendo como você se sente.
-Acho difícil. Mas você pode tentar.
-É...
-A tarde está agradável.
-O fim dela.
-Pode ser o nosso fim também.
-Não seja tão dramática.
Ela riu pela primeira vez naquele dia. Pela primeira vez naquele mês, disso tenho certeza. Me senti feliz por ainda conseguir fazer alguém rir.
-Você lembra do tempo em que eu queria ser atriz pra poder sair dessa cidade?
-Claro.
-Eu queria sair dessa cidade, loucamente, desesperadamente, queria sair daqui, encontrar outro lugar pra ser meu, algum lugar que pudesse chamar de meu. Mas hoje em dia... Não... Não mais.
-Essa cidade é nossa. Talvez seja a única coisa que nos caiba.
-Sinto tristeza com isso.
-Eu também.
-Mas hoje em dia não poderia mais sair daqui. Sinto como se essa cidade fosse minha verdadeira mãe. Ela me mal criou, me aborta todos os dias.
-Tu quer uma cerveja?
-Quero.
Levantei e atravessei as duas pistas. Entrei num bar. Trouxe as latas. Continuamos sentados, fumando e bebendo.
-O que tu vai fazer agora?
-Não sei. Continuar vivendo.
-Vocês já tavam juntos há muito tempo.
-Muito. Foi um tempo que os relógios não poderiam contar. E agora sinto como se eu não tivesse mais nada.
-É a merda da vida. É como as coisas são. Você lembra daquela garota da banca de revistas por quem me apaixonei? Nem comprar revista eu comprava antes, mas passei a ir lá toda semana, e comprava algo dela. Naquela época eu trabalhava legal, tava com uma grana, tava me sentindo bem. Pensei que iria me querer. Ela não ficou comigo. Preferiu ficar um outro cara.
-O que você tá querendo dizer?
-Sei lá.
-Isso não tem a mínima comparação!
-É, eu sei... Foi mal.
Ficamos em silêncio. Fumando.
-Sabe o que eu mais gosto nessa cidade?
-Não.
-A forma como o pôr do sol chega. A forma como a luz deita sobre a cidade, sobre as ruas, os muros, sobre as pessoas. É uma luz dourada, é como se a cidade toda fosse banhada por ouro por alguns minutos de seu dia.
-Você tem razão, é algo bonito.
-E não posso deixar de lembrar todos os beijos dados nessa cidade, todos os abraços e apertos de mão. Simplesmente não consigo deixar de lembrar disso.
Puxei dois cigarros, acendi. Um pra mim e outro pra ela. Ficamos lá fumando e terminando a cerveja. A noite já cairia por completo. As pessoas começavam a caminhar nas calçadas saindo de seus trabalhos à procura de suas casas ou outros destinos.

2011