segunda-feira, 18 de abril de 2016

O POVO.

A tarde começava a terminar, desci a rua em direção da praça, queria ver o movimento, o povo, quem faz besteira se fazendo de besta. Uns companheiros ficaram vendo pela TV. Faz um tempo que deixei de ver TV. Nem tenho mais uma. Desci a rua. Não muito longe vi uma mulher vestida de amarelo levando um cachorro vestido de amarelo. Soltei uma gargalhada. Eu já podia voltar, mas queria me divertir mais. Dobro a esquina e vejo a multidão na praça. Me aproximo, paro e acendo um cigarro. Fico sacando o povo. No microfone um cara gritava que iria sim, ter impeachment, que o povo clama por justiça. Olhei ao redor, e não vi. Vi um bando de gente branca vestida ridiculamente de verde e amarelo. Uma multidão branca, loiros, uns olhos azuis, cabelos lisos, gente bem alimentada, gente rica, o povo rico da cidade num bairro rico da cidade. Fiquei procurando o povo. Mais ali eu só via advogados, juízes, donos de negócios, empresários, dondocas, madames, novinhas ricas, meninos mimados, cachorros tratados melhor que muita gente. O povo. O povo brasileiro. Mais tinha outra gente por ali. Vendendo água, refrigerante, cerveja, comida, bandeira, camisa, milho. Tudo pros ricos comprarem. Tem que vender pra quem tem dinheiro. Vai uma camisa ai, meu patrão? Me passa um cara oferecendo. Faço que não com a cabeça. Na camisa; #SomostodosMoro. E um boneco gigante do juiz no corpo do Superman tava na praça. Do lado, o antigo presidente vestido de presidiário. Tava divertido, e eu queria me divertir mais. Fiquei perambulando entre as pessoas, mudava de lugar a cada cigarro, eu queria ver os vários ângulos da comédia. Sentei perto de uma banca de revistas, meio afastado. Acendi outro cigarro. Fico sentado, olhando o povo, ouvindo o povo. Começam os votos. As pessoas sentam no gramado da praça pra ver. A cada sim, é um grito de vitória. A cada não, uma vaia grande. Uma deputada vota não. Rapariga, feia, mal amada. Grita um cara atrás de mim. Eu gosto quando vejo pessoas dando aquilo que tem pros outros. A noite vai começando. Levanto e começo a andar. Vou caminhando entre as pessoas que assistem a votação pelo telão na praça. Vou me distanciando, voltando pra minha realidade.

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