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O PERIGO.

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Acordo e já é dia, o sol entra pelas cortinas. Não sei que horas são. Então viro pra mesinha ao lado da cama e vejo no relógio digital em cores vermelhas que já passam das nove. Olho pro quarto espaçoso. Me sinto cansado. Ontem bebi muito. Sei que ela me trouxe pra cá, e já foi embora. Provavelmente pro trabalho. Não deixou recado no travesseiro ao lado, como nos filmes. Levanto da cama. Caminho um pouco pelo quarto, vou até a janela e vejo a rua. Um garoto passa de bicicleta. Vou ao banheiro. Espaçoso. Essa casa é boa, ela deve ter um bom emprego. Lavo o rosto. Saio. Caminho pelo corredor e encontro a cozinha, abro a geladeira. Ela tem um bom emprego. O que a fez me trazer aqui ontem? O que queria com um cara como eu? E ela foi embora e me deixou em sua casa. Caminho até a sala e sento no sofá, me esparramando como se isso tudo fosse meu por alguns minutos. Mas nada disso poderia ser meu, nada disso foi feito para um cara como eu. Sei que poderia me acostumar com isso, e então é onde...

A PEDRA.

Caminhava e sentia com a mão O silêncio de minha pedra de estimação Que levava dentro de meu bolso. Meus olhos escorregaram até meus dedos, Assim eu via tudo a cada minuto que existia, E isso levou horas Levou inteiro o dia. A pedra cresceu no bolso, Tive que carregar dentro de uma bolsa De tão grande que ficou. Dentro da bolsa a pedra explodiu, Soltando água que nela existia E comigo, senti tudo mais pesado. 16/01/2008 18:31

ILUMINURAS.

III Nos bosques tem um pássaro, você pára e cora com seu coro. Tem um relógio que não toca nunca. Tem uma brecha no gelo com um ninho de bichos brancos. Tem uma catedral que sobe e um lago que desce. Tem uma pequena carruagem abandonada na moita, ou que passa correndo, decorada. Tem uma trupe em trajes de comédia, espiada pela trilha da floresta. E então, quando você tem fome e sede, tem sempre alguém que te manda passear. IV Eu sou o santo, rezando no terraço, — como os animais pacíficos pastando junto ao mar da Palestina. Eu sou o sábio na poltrona sombria. Os galhos e a chuva se jogam contra a vidraça da biblioteca. Eu sou o andarilho da grande estrada entre os bosque anões; o rumor das represas cobre meus passos. Me demoro vendo a triste fuligem dourada do pôr-do-sol. Eu bem podia ser a criança abandonada no cais de partida pro alto mar, o caipira rodando as alamedas, sua cabeça roçando o céu. Os caminhos são áspero...

XENIA.

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Meu tio se matou três dias antes d o meu nasc imento . Deu um tiro na cabeça com a arma velha e enferrujada que meu pai tinha comprado quando era moço. Minha mãe só ficava chorando, mas segurou firme. Me segurou firme por três dias. Então nasci. Uma vez meu pai me perguntou por que eu tinha saído pr a e sse mundo, disse que era um lugar ruim de viver. Eu perguntei então porque ele tinha me colocado dentro da minha mãe. Meus pais não se falavam muito. Meu pai quando bebia, me batia quando chegava em casa. Na escola, a maior parte dos garotos não gostavam de mim, muitos queriam me bater nos intervalos e no fim das aulas. Quase todos os dias eu tinha que enfrentar um cara que era maior que eu. Quase todos os dias eu tinha que provar que eu era mais forte do que os outros. Nem sempre eu vencia, mas batia neles também. Foi assim que começaram a me respeitar. Ou simplesmente começaram a esquecer de mim. C omecei a roubar nos supermercados, colocava coisas pequenas dentro ...

POEMAS DE PAULO HENRIQUES BRITTO.

III Nem tudo que tentei perdi. Restou a intenção de ser alguém ou algo que não se pode ser, mas só ter sido; restou a tentação do nada, nunca tão forte que vencesse esse meu medo que é a coisa mais honesta que há em mim. Sobrou também o hábito vadio de me virar do avesso e esmiuçar as emoções como quem espreme espinhas. Mas nada disso dói; a dor é um ácido que ao mesmo tempo que corrói consola, que arde mas perfuma. Isso que eu sinto é uma coceira que vem lá de dentro e me destrói sem dignidade alguma. VII A consistência exata dessa insônia, a forma certa desse medo, o gesto seco que rejeita essa necessidade abjeta de ser quem não se é — a aceitação completa da vontade insuportável de querer o que se quer, a sede obscena de tragar o copo junto com a bebida — coisas tão simples, que só pedem a paciência sábia dos que aprenderam a se aturar, a santa complacência de quem lambe as próprias chagas e aprecia o gosto — não por requinte de nojo, mas só por nunca h...

OS MESMOS DIAS.

A noite me espia vazia Falando que logo já será dia. O sono que me vem agora lento como maré, Não é a onda pesada que tentará me derrubar pela manhã. Assim, sigo tentando destruir as horas do relógio Sigo tentando destruir o medo no peito Sigo tentando destruir este vazio de todos os dias, Enquanto à noite me espia silenciosamente vazia Me dizendo que logo, logo já será um novo dia. 29/07/2008 23:46

LEIA ABAIXO UM DOS POEMAS.

Recebei as nossas homenagens Único homem acordado nesta noite, o apartamento apertado parece imenso; vagueio desacordado de tudo e sobretudo em desacordo comigo, único homem acordado no mundo; o teatro estreito assim vazio parece largo, perambulo absoluto, príncipe estragado; não dormir é meu palácio; a Dinamarca, diminuta, parece dilatar-se enquanto palmilho o ar do quarto. Vem o dia, e o fantasma de meu pai não me aparece. Da vista e do visto Mais uma vez é maio; não o levaste contigo; horas se escrevem hoje com o lápis de sempre, ultramar e um tanto adolescente; não o levaste, maio, mês de meu aniversário, quando a melancolia é menos nítida que a linha dos morros e dos edifícios; vento sol amendoeiras, é como te digo, não levaste maio e mesmo os meus olhos estão aqui, comigo; algo, porém, sei que se foi contigo; que coisa era, não sei, e, ainda que pequena, faz falta, era minha; coincidência ou não, procuro e não encontro a m...