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RUAN.

Seu nome era Ruan, mas nós o chamávamos de Ramon. Nos conhecemos na época do colégio. Ele tinha 15 anos e ficava com todas as meninas que queria, no bairro e das festas que nós íamos. Tocava guitarra em uma banda de punk rock e cantava também. Praticamente em cada festa, saía com uma garota diferente. Namorava uma garota da escola. Sempre uma diferente em cada ano. Mas teve uma com quem passou dois anos juntos. Falavam em casamento. Um dia terminaram. Fazíamos festas na casa dos amigos quando os pais raramente viajavam, Ramon sempre desaparecia, depois o víamos andando pela casa segurando a mão de uma garota. Ele nunca falava das coisas que acontecia, nunca se gabava, era somente algo natural nele, algo que gostava, algo que fazia. Nós sentávamos e conversávamos por horas como se o mundo nunca fosse acabar, como se nossas vidas nunca fossem parar um dia. Ramon andava de skate pela cidade, havia competido um tempo, ganhou um troféu e uma medalha. Escutava Punk rock e música ...

CORAÇÃO.

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-Lembra daquele carinha de cabelos lisos e pintados de loiro, que escreve? -Qual deles? Têm tantos assim nessa cidade. -Benjamim. Escritor. -Sei dele. Qual é? -Lançou um romance por um edital. -Ganhando um trocado. -Recebeu, e agora vai escrever um livro sobre literatura e cultura pop. -De lascar, heim! -É, a porra do trabalho dos sonhos. -Que terror daquele cara escrevendo sobre literatura. -Que terror daquele cara e dos contos dele. -São terríveis. Mas foram publicados! -E tu já leu os poemas? -Piores. -Uma merda. Não acredito que tipos como esses são os futuros gênios da literatura na cidade. -Não acredito que esses são a galera que tão escrevendo e pulicando e querendo de alguma forma acontecer! -E nem posso falar disso com outras pessoas, que logo dizem que sou invejoso. -É só o que falam hoje. Já notou que hoje em dia o cara tem que gostar de todo mundo, se você fala que não gosta de alguém, do que ele produz...

DIZEM QUE FOI UM SALVADOR

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O cara apareceu em pleno 2018 falando que era um salvador. Falava que havia vindo de outro mundo, outra dimensão mais evoluída e trazia respostas, trazia uma nova forma de viver para quem quisesse. Acho que ninguém quis ser salvo nem muito menos fez pergunta a ele no início. Ficava perambulando pelas ruas e falando alto, sozinho, filosofando. Quem tava sentado em banco de praça e se sentia incomodado levantava e ia embora. Quase ninguém dava muito ouvido no início. Alguns paravam e assistiam a cena. Levaram tudo na boa enquanto era pouca gente, mas quando ele começou a ser seguido pelos mendigos de rua e gente pobre que trabalha muito mais nunca tem dinheiro, alguns resolveram que era melhor calar a boca do sujeito. Dizem que ele fez uns milagres por aí também. Salvou umas crianças doentes que tavam pra morrer, curou uns cegos, colocou pra ver, botou uns surdos para escutar. Foi então que decidiram que era hora de prender o cara.  Isso foi numa época muito estranha em qu...

COMO SE FOSSE A ÚLTIMA VEZ.

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Ela era meio cigana. Dizia que tinha nascido em uma tenda de circo, e que não ficava numa mesma cidade mais que três anos. Dava de pedir minha mão pra ler minha sorte nas linhas desenhadas na palma branca. Falava que parecia borracha a palma da minha mão. Nunca disse que eu seria um milionário. Falava que minha esposa morreria queimada em um acidente de carro. Eu dizia à ela que não sabia dirigir, nem muito menos pensava em me casar. Ela respondia que um dia sim. Nós nos amávamos como se cada foda fosse à última de nossas vidas. Era por isso que eu a amava. Era por isso e por muito mais que à amei durante um tempo de minha vida. Os 10 meses que passamos juntos e um tempo mais que levou para pensar que tinha esquecido. Mas nunca consegui por completo. Você só ama o que não pode mais tocar. Eu pensava. Nós andávamos pela praia à noite, dormíamos na areia agarrados e acordávamos com malucos tentando roubar nossas carteiras ou sapatos. Ou acordávamos com o sol quente do verão nos despe...

O HOMEM COM CABEÇA DE CACHORRO.

O homem com cabeça de cachorro nasceu de parto normal. Homem, dois braços, duas pernas, corpo humano, e uma cabeça de cachorro. Nasceu de pai e mãe normais. Criado pelos pais, recém-nascido, receberam proposta para viver e trabalhar em circo. Nunca aceitaram. Somente quando os pais morreram que passou a comprar a própria comida, vendendo a imagem de sua cabeça de cachorro por alguns trocados nas feiras exibicionistas. Sua voz poucos ouviram. Quando abria a boca na tentativa de expulsar som, alguns jogavam pedra, corriam de medo, e existiam os que desmaiavam. Assim, aprendeu a comunicar-se por gestos. Nunca teve amigos. Sempre viveu sozinho. Nunca foi amado por mulher alguma que não fosse sua mãe. Vivia sozinho no antigo casebre dos pais mortos. As crianças iam até lá jogar pedras nas janelas onde não haviam mais vidros, só panos servindo de cortina. O homem com cabeça de cachorro morreu sozinho já passando dos 30 anos, sentado em uma poltrona, de frente para um...

CORAGEM.

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  -E então, você vai fazer? -Sei não... -Deixa de ser frouxo, tô com a arma ali no carro, estacionei na rua de trás. -O que eu ganho com isso? -Te dô uma grana, e mais o que tu quiser na cama. -Eu tenho emprego. E você já faz o que quero na cama. -Faço mais. -Tem uma coisa que eu sempre quis que fizessem. -Fala, eu faço. -Faz nada, nenhuma teve coragem. -Se você fizer a tua parte eu faço sim, o que é? -Nãm, nenhuma teve coragem. -Eu faço. -Conversa. -Verdade, juro. Diz o que é. -Você é uma mentirosa. Nisso dou um tapa na cara dela. Faz barulho e ela se treme toda, bate com o corpo no copo, na garrafa, derrama cerveja. O bar inteiro olha. São sete caras e mais duas donas que estão acostumados com tudo, mas sempre reparam, nunca perdem. -Seu filho da puta – ela diz. Está com raiva, os olhos arregalados, ódio puro. – Você não devia me tratar assim, você não pode. -Ah, cala a boca. Deixa de drama, você tá acostumada com isso, leva do teu marido...

O PERIGO.

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Acordo e já é dia, o sol entra pelas cortinas. Não sei que horas são. Então viro pra mesinha ao lado da cama e vejo no relógio digital em cores vermelhas que já passam das nove. Olho pro quarto espaçoso. Me sinto cansado. Ontem bebi muito. Sei que ela me trouxe pra cá, e já foi embora. Provavelmente pro trabalho. Não deixou recado no travesseiro ao lado, como nos filmes. Levanto da cama. Caminho um pouco pelo quarto, vou até a janela e vejo a rua. Um garoto passa de bicicleta. Vou ao banheiro. Espaçoso. Essa casa é boa, ela deve ter um bom emprego. Lavo o rosto. Saio. Caminho pelo corredor e encontro a cozinha, abro a geladeira. Ela tem um bom emprego. O que a fez me trazer aqui ontem? O que queria com um cara como eu? E ela foi embora e me deixou em sua casa. Caminho até a sala e sento no sofá, me esparramando como se isso tudo fosse meu por alguns minutos. Mas nada disso poderia ser meu, nada disso foi feito para um cara como eu. Sei que poderia me acostumar com isso, e então é onde...

XENIA.

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Meu tio se matou três dias antes d o meu nasc imento . Deu um tiro na cabeça com a arma velha e enferrujada que meu pai tinha comprado quando era moço. Minha mãe só ficava chorando, mas segurou firme. Me segurou firme por três dias. Então nasci. Uma vez meu pai me perguntou por que eu tinha saído pr a e sse mundo, disse que era um lugar ruim de viver. Eu perguntei então porque ele tinha me colocado dentro da minha mãe. Meus pais não se falavam muito. Meu pai quando bebia, me batia quando chegava em casa. Na escola, a maior parte dos garotos não gostavam de mim, muitos queriam me bater nos intervalos e no fim das aulas. Quase todos os dias eu tinha que enfrentar um cara que era maior que eu. Quase todos os dias eu tinha que provar que eu era mais forte do que os outros. Nem sempre eu vencia, mas batia neles também. Foi assim que começaram a me respeitar. Ou simplesmente começaram a esquecer de mim. C omecei a roubar nos supermercados, colocava coisas pequenas dentro ...

OUTROS DESTINOS.

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  “ Eu tinha alguma esperança e aí tudo morreu como um demônio em chamas. ” Camila Fraga. Era fim de tarde. Ela tinha me pedido para encontrá-la na velha praça. Quando cheguei, já tava lá sentada fumando um. Os brinquedos velhos e enferrujados que brincamos anos antes. Agora já parecia que muito tempo tinha passado. Aproximei e sentei ao seu lado. -Como é que tá? -Quebrada. Como se tivessem retirado algo de mim. De dentro de mim. Como se eu tivesse nascido com asas e tivessem arrancado de mim usando só as mãos. Fiquei em silêncio. Peguei meu cigarro e acendi. -Acho que entendo como você se sente. -Acho difícil. Mas você pode tentar. -É... -A tarde está agradável. -O fim dela. -Pode ser o nosso fim também. -Não seja tão dramática. Ela riu pela primeira vez naquele dia. Pela primeira vez naquele mês, disso tenho certeza. Me senti feliz por ainda conseguir fazer alguém rir. -Você lembra do tempo em que eu queria ser atriz pra poder sa...

FRED.

Ninguém soube ao certo o que significou o que Fred tinha feito, se era um ato de loucura ou simplesmente um ato completamente imbecil. E muitos na cidade eram aqueles que diziam achar Fred um completo imbecil. Seu nome real não era Fred. Ele mesmo tinha se dado este nome retirado de algum filme de ficção científica que viu muitos anos antes. Ele tinha saído da cidade há cerca de três ou quatro anos antes do que veio a acontecer. Tinha meio que fugido da humilhação de ter encontrado sua mulher com outro, ter brigado com o cara, perdido, levado uma surra no meio da rua, e ainda escutado da mulher que ele sustentava, que ela estava dando para outro porque o outro era melhor que ele na cama. Ele passou uns três dias bebendo, caindo no chão das ruas, depois pegou algumas coisas e saiu da cidade. Quase ninguém o viu indo embora, somente uns velhos que ficavam sentados o dia inteiro vendo a rua passar. Fred passou um tempo fora, ninguém achava que ele seria capaz de voltar, mas depo...

TU ACREDITA EM SONHOS?

-Tu já leu Kafka? -Já, mas faz muito tempo, ainda estava na escola. Que é que tem? -Nada, só estou me sentindo como um personagem dele. -Qual personagem? -E isso importa?! -Deve importar. -Sentir-se um personagem do Kafka já é ruim demais, não importa nada. -Sabendo qual personagem é, de qual livro, você pode tentar entender melhor a situação. -Tu acredita em sonhos ou coisas assim? -Tipo, você tá falando de significados? -É, isso aí. -Que nada, isso não existe. -Você acha? -É... Mas minha irmã tem um livro, tipo um dicionário de sonhos, e às vezes eu vô lá, dou uma olhada. -E aí? -E aí nada. É tudo uma merda. As coisas que sonho nunca significam o que dizem no livro. -Como assim? -Você sonha uma coisa e o livro diz o que significa, tipo o que pode acontecer com você. Mas nunca o que sonho acontece como que eles dizem. -Então você acredita, sempre vai ver o que é. -Acredito porra nenhuma, é só costume, é igual a ligar a TV, você já sabe o que tá p...

SEM DESTINO.

-De verdade, eu só queria saber como ela tá. -E eu é que vou saber?! Os dois escorados no muro baixo. -Eu só queria saber como ela tá. E se pensa em mim. -Pensa, com certeza, mas é bem possível que não como você pensa nela. -De lascá isso. -De repente ela já pode ter te esquecido. -É foda. -De repente ela pode estar te esquecendo, e tu aí, nada de esquecer dela. Perto de meia-noite, os dois fumando. No céu dava pra ver umas estrelas. -Ela disse que queria que eu saísse desse lance. Mas o que mais é que eu vou fazê?! -Mulher é foda, nunca tá satisfeita com o que tem, pode repará. -Se eu não ganhá uma grana aqui, não sei mais o que faço. -Hoje a noite vai até ser boa, tu vê as estrela?! Não vai chovê. Ruim é quando chove. -Eu largo isso por ela, mas não sei mais onde ir. -Porque tu num escreve um livro? -Um livro?! -É. -E sobre o quê?! -Sei lá, sobre qualquer coisa. Sobre você, sobre issaquí. Pode até vender, tem gente que se dá bem, e tu p...

ENTRE ZERO E NADA.

Quando saiu do avião, sentiu que sua vida não mudaria. O tempo todo da viagem refletia sobre tudo que tinha acontecido e em como dali por diante tudo seria diferente. Mas ao colocar os pés em outra cidade, sabia que não existia recomeço, somente continuações. Caminhou procurando um táxi sem saber aonde ir. Nos passos que deixava para trás; um marido, dois filhos e uma vida que considerava de falhas. Demorou muito tempo para ter tomado à decisão de sair, de mudar, de não ser mais o que vinha sendo sua vida inteira. Mas nos passos que seguiam, sabia e pensava que as coisas não seriam diferentes, tudo, aonde fosse, aonde estivesse, com quem estivesse ou completamente sozinha, tudo, seria sempre igual. A vida para algumas pessoas neste mundo não muda, as continuações são sempre repetições. Pensou e acenou pedindo um táxi. Um velho senhor de olhos escuros e chapéu na cabeça veio pegar sua mala. Pra onde, senhora? Foi o que perguntou já dentro do automóvel. Ela ficou em silêncio por...