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ILUMINURAS.

III Nos bosques tem um pássaro, você pára e cora com seu coro. Tem um relógio que não toca nunca. Tem uma brecha no gelo com um ninho de bichos brancos. Tem uma catedral que sobe e um lago que desce. Tem uma pequena carruagem abandonada na moita, ou que passa correndo, decorada. Tem uma trupe em trajes de comédia, espiada pela trilha da floresta. E então, quando você tem fome e sede, tem sempre alguém que te manda passear. IV Eu sou o santo, rezando no terraço, — como os animais pacíficos pastando junto ao mar da Palestina. Eu sou o sábio na poltrona sombria. Os galhos e a chuva se jogam contra a vidraça da biblioteca. Eu sou o andarilho da grande estrada entre os bosque anões; o rumor das represas cobre meus passos. Me demoro vendo a triste fuligem dourada do pôr-do-sol. Eu bem podia ser a criança abandonada no cais de partida pro alto mar, o caipira rodando as alamedas, sua cabeça roçando o céu. Os caminhos são áspero...

POEMAS DE PAULO HENRIQUES BRITTO.

III Nem tudo que tentei perdi. Restou a intenção de ser alguém ou algo que não se pode ser, mas só ter sido; restou a tentação do nada, nunca tão forte que vencesse esse meu medo que é a coisa mais honesta que há em mim. Sobrou também o hábito vadio de me virar do avesso e esmiuçar as emoções como quem espreme espinhas. Mas nada disso dói; a dor é um ácido que ao mesmo tempo que corrói consola, que arde mas perfuma. Isso que eu sinto é uma coceira que vem lá de dentro e me destrói sem dignidade alguma. VII A consistência exata dessa insônia, a forma certa desse medo, o gesto seco que rejeita essa necessidade abjeta de ser quem não se é — a aceitação completa da vontade insuportável de querer o que se quer, a sede obscena de tragar o copo junto com a bebida — coisas tão simples, que só pedem a paciência sábia dos que aprenderam a se aturar, a santa complacência de quem lambe as próprias chagas e aprecia o gosto — não por requinte de nojo, mas só por nunca h...

LEIA ABAIXO UM DOS POEMAS.

Recebei as nossas homenagens Único homem acordado nesta noite, o apartamento apertado parece imenso; vagueio desacordado de tudo e sobretudo em desacordo comigo, único homem acordado no mundo; o teatro estreito assim vazio parece largo, perambulo absoluto, príncipe estragado; não dormir é meu palácio; a Dinamarca, diminuta, parece dilatar-se enquanto palmilho o ar do quarto. Vem o dia, e o fantasma de meu pai não me aparece. Da vista e do visto Mais uma vez é maio; não o levaste contigo; horas se escrevem hoje com o lápis de sempre, ultramar e um tanto adolescente; não o levaste, maio, mês de meu aniversário, quando a melancolia é menos nítida que a linha dos morros e dos edifícios; vento sol amendoeiras, é como te digo, não levaste maio e mesmo os meus olhos estão aqui, comigo; algo, porém, sei que se foi contigo; que coisa era, não sei, e, ainda que pequena, faz falta, era minha; coincidência ou não, procuro e não encontro a m...

CARTA SOBRE A FELICIDADE.

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" Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer por meio da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la.  Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz. Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem-...

O POEMA.

Tua linguagem subterrânea te afasta do mundo. Por acaso o poema é teu sol? Ilumina teus sonhos, aquece teu espírito? Ou é teu modo de viver sem a vida? Teu encontro cotidiano com a morte? Que fazes das palavras que te perseguem em seu imantado mistério e em sua ordem? Que fazes da unidade e do equilíbrio que elas te         ofertam? Se não percebes esse momento divino uma flecha venenosa atravessará teu coração. De nada te servirá a poesia. José Alcides Pinto - Silêncio Branco

TODOS OS POEMAS SÃO LOUCOS.

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marinheiro   Eu sei que você e eu somos pessoas por quem os sinos não dobram e os cães não ladram; e que a realidade não é uma pista de dança, nem a vida uma piscina onde você se afoga e é resgatado com vida. Se eu preciso registrar o momento e você não está ao meu lado, o verão, o bronze, o neon desbotado dos motéis também perderá a cor e eu me perderei nas ruas como um cachorro abandonado. Em cada pedaço de chão ou apartamento vazio, as janelas que você escancara não mostram o mundo lá fora. A inundação da chuva, motoristas atolados, ciclistas sem direção: o amor sob as cobertas quando a + b são sentimentos descritos em livros por um narrador sem rosto ou fome. Deixo você ir e também me perco no asfalto — morrendo de sede como marinheiro sem âncora tatuada no braço. espinha vertical   Imagine que você morra por dentro entre quatro ou doze semanas não consecutivas. Imagine do outro lado do telefone alguém que não te escuta. Já passou da meia-noite e você precisa dormir....

SATURNINO.

Ilha Saturnino Vieira não conseguia dormir, saiu da cama e foi à cozinha encher um copo com água para tomar o seu comprimido. Sentia-se infeliz, sabia que se não tomasse um comprimido seria dominado por pensamentos soturnos. Todo homem é uma ilha, você não vai ouvir sinos tocarem, ele pensava, olhando o copo em sua mão. Por alguma razão devia tomar o comprimido com água, ainda que eles, pequenos e cobertos por uma camada lisa e adocicada, não precisassem de ajuda para escorregar pela sua garganta. Ele era uma ilha, o resto era conversa fiada. Enquanto fosse vivo, ficaria sozinho na ilha. Morto, não sabia o que aconteceria. Provavelmente nada. Claro que era melhor estar vivo que morto. Por enquanto. Mas sabia que seu insulamento não tinha fim, comprimidos e mulheres faziam efeito apenas por algum tempo. Todos os prazeres eram fugazes. Todo diálogo era de surdos. Ninguém entendia ninguém. Passou pelo quarto, o copo com água na mão, para ir ao banheiro, onde os comprimidos estavam ...

EU NÃO ME SINTO BEM AO LADO DE NINGUÉM.

" Eu não gostava mesmo quando eu era pequeno porque eu pensava que eu era maluco. E eu não queria ser maluco. Eu queria ser igual a todo mundo porque assim se sofre menos – eu pensava. Mas descobri depois, com a velhice, que ser igual a todo mundo também não é bom, de jeito nenhum. Porque todo mundo, putz, todo mundo… Não sei se tenho pena ou raiva, mas parece um desfile numa casa de bonecas e eu não me sinto bem com todo mundo nem em lugar cheio onde todo mundo vai. Eu fico tonto. E eu fico triste. Eu fico com vergonha, muita vergonha de mim e de todo mundo junto . " __________ J.C. Dinheiro Para Dançar e Comprar Lâmpadas Sem Gênio Dentro/ Ou Eu Preciso de Sulpirida .

EXTRATERRESTRES.

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Para o povo aí que goza quando acham uns extraterrestres a dez anos luz daqui; primeiro existem dois tipos hipotéticos de civilizações extraterrestres; as primitivas e as mágicas (terminologia científica, não é minha). O primeiro tipo são estas que estão tão quanto ou menos desenvolvidas quando comparadas com os seres humanos. O segundo tipo, as mágicas, são as que já estavam dando suas piruetas pelo espaço quando o planeta Terra ainda estava se aclimatando para gerar futur amente (bilhões de anos) uma célula, uma combinação molecular, ou seja, qualquer forma de vida até que apareceria milhões de anos depois um bicho qualquer antes do homem. Resumindo: quando você passa por um formigueiro você dá aquela olhada, e se estiver meio entediado, dá uma cutucada com uma vareta e logo a vida segue, não é não? Mas é muita pretensão desta nossa raça achar que na possibilidade de existir uma civilização extraterrestre evoluída a ponto de empreender viagens intergaláticas esta tenha qualque...

ESTE HOMEM.

I E então um deus falou: Este é um homem condenado Por todos seus sonhos, E deveria, mas nunca Será redimido Ou conhecerá a salvação Porque conheceu o fogo E é, em sua carne, o fogo Que queima mas não destrói Como a música desesperada O instinto incontrolável e suicida De todos os sonhos condenados, Este homem É um ritual autofágico De tambores Dos trompetes estranhamente silenciosos Em seus sons diabólicos, A mágica do inferno No cérebro, na alma, nos ouvidos E as perdições humanas e suas cadeias E as cordas dos instrumentos e as flores – Este homem Estará para sempre condenado, não existe caminho Por onde lhe escape o destino E que o proteja das profecias – Talvez alguém lhes diga Quem era este homem. II E o outro deus disse: Este homem está salvo Porque foi tão esmagado E tão repleto e consciente Dos sons, das tristezas, do fogo, das condenações e das mágicas (Como o funeral de um anjo) Que ele ir...

A VIDA NÃO É NADA DO QUE EU PENSAVA.

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Ernst Ludwig Kirchner, Artistin Marzella Hoje vivi um pouco Talvez uns Segundos Coisa de façanha Foi mérito alheio Trazido à boca Nada que alarmasse Os vizinhos Apenas Pouco ... Como lavar e etc. Por que razão Fazemos perguntas Quando já temos a Resposta mais que escrita E triturada Na cabeça e No corpo? Repetir o que sabemos Mas não queremos Talvez seja forma De limpeza Coisa de roupa suja Que precisa de Quarar ao sol Para só assim Desaparecer Porque para sumir Mesmo É preciso morrer Como morrem Os indigentes Sem deixar lástimas, Ou nome no Cemitério Quero que a Minha dor Acabe assim Sem corpo ... A vida não é nada Nada Do que eu pensava Imaginava uma vista Do Arizona Seca e bela Larga até o fim do Mundo Onde tudo existia Pelo meu gosto Ou tristeza Aí Pedi areia sem água Veio amor sem remédio E coisas de permanência Sem tempo e sem memória ...

FORTALEZA TÁ SEMPRE QUENTE.

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Ontem a poeta Patrícia Lino resolveu soltar esse vídeo no Facebook lendo um poema de Pedro Craveiro. Lindo. Esses portugueses quando resolvem escrever é só pra dilacerar nossas almas.

SARAU DAS CINZAS.

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A Flipobre foi um sucesso. Falei disso aqui no blog, participei como pude e foi muito bom ver um dia inteiro dedicado a literatura  sem frescuras na internet. E então tendo sido um sucesso, deu fruto, um sarau. O Primeiro Sarau da Flipobre acontecerá logo após o carnaval, na quarta-feira de cinzas. As leituras de poemas, contos e trechos de romances acontecerão a partir das 7 da noite, horário de Brasília. Abaixo os escritores que irão participar do evento idealizado pelo escritor Diego Moraes e que terá o também escritor Roberto Menezes cuidando da parte técnica: Nina Rizzi , Júlia Hansen , Eduardo Lacerda , Fernanda D´Umbra , Regina Azevedo , Adriane Garcia , Caco Ishak , Jorge Rocha , Tadeu Sarmento , Bruno Brum , Eduardo Vinha , Fabiano Calixto , Pedro Tostes , Robisson Albuquerque , Erre Amaral , Diego Moraes , Manoel Herzog , Betzaida Mata , Ricardo Pozzo , Roberto Menezes , André Timm , Felipe Bustamante , Claudio Castoriadis . Norma de Souza Lopes , Giovana Damasceno ...

NO FUNDO DO BOLSO.

Quatro homens sentados lado a lado. Expressões mais ou menos sugestivas, mãos repousando sobre as pernas. Aguardavam o que? o clique da foto, a consulta no posto de saúde, ou o indelével encontro na noite? Nem eles sabiam. Estavam ali sentados como quem se extravia de certo fio que redime e falha dos acontecimentos. Acham-se ali como a parede cinza, o tapete em frangalhos... E a tarde que se esqueceu de passar. Coagulada, feito a foto que amasso no fundo do meu bolso. João Gilberto Noll - Mínimos, Múltiplos, Comuns .  

PROSPECÇÃO.

Ninguém te vê. Só os ventos te penetram. Ninguém que esteja saciado Ou faminto Necessita de ti. Neste exato sem nome Reintegra-te à nuvem que passa E ao canto das aves. O poeta, já o disse, É um ser transparente. Invicto. Desnecessário Entre porcos, hienas E outros viventes Solidariamente incompletos. Jorge Tufic

HATOUM HOJE.

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PRIMEIRA FLIPOBRE.

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A Flipobre , primeira feira literária via internet foi ao que tudo indica um sucesso. O evento criado pelo amazonense Diego Morais e que teve a participação do escritor Roberto Menezes na parte técnica, aconteceu ontem, durante toda a tarde, e foi até o fim de noite, com diversas mesas, hongouts com escritores debatendo sobre literatura, tudo ao vivo. Foi algo bonito de ver, todas as mesas debateram coisas importantes, instigantes. E levando em conta que a maior parte dos escritores que participaram eram não muito conhecidos ao grande público, ver que teve hongouts com 180 pessoas assistindo foi algo muito bom de ver. Os debates como já tinha dito aqui, foram da formação de novos leitores, machismo na literatura, escritores e leitores e a questão da internet como ferramenta de auto publicação. Este que vos escreve teve uma tímida participação na mesa “ Editora pra que? ” onde escritores ainda inéditos em livro e recém publicados discutiram a internet como ferramenta de alto...

FLIPOBRE.

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Sem grana pra ir a Paraty e conferir a Flip ? Sem saco também pra entrar em uma viajem como essa? Então chega na FliPobre , lugar de bons autores, porém lascados.     O escritor  Diego Moraes resolveu criar o evento, cansado do estrelismo literário, da falta de visibilidade, dos eventos literários com convidados como cartas marcadas devidamente bem escolhidas, e por pura vontade de fazer algo, resolveram criar a Flipobre, um encontro literário que acontecerá pela internet reunindo escritores do Brasil inteiro para conversas e debates. A Flipobre acontecerá dia 7 de dezembro , as conversas irão ao ar via hangout no youtube, e esse que vos escreve foi um dos convidados para participar. E como se trata de um encontro literário de escritores que ainda não se deram bem na vida com a literatura, financeiramente falando, a ideia é de homenagear um escritor que em vida escreveu pra caralho, deixou sua marca na literatura, mas morreu "em desgraça". E Lima Barreto ...

POR ONDE ANDA ARTURO BANDINI?

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Arturo Bandini é um dos meus personagens favoritos na ficção. A primeira vez que li uma estória de John Fante com o personagem foi em “ Sonhos de Bunker Hill ”. Fiquei maravilhado com o senso de humor de Fante usado na construção tanto do personagem como nas situações que o colocava. Deitava e lia e ria sozinho de diversas coisas que aconteciam com Bandini, um personagem tão humano, que cometia erros tão humanos que é quase difícil não se apaixonar. Adorei “Sonhos de Bunker Hill” de imediato, o li duas vezes no ano em que o comprei, e então já estava meio que tomado pela literatura de John Fante. A emoção nas histórias do escritor escorre pelas páginas. Um tempo depois li “ 1933 Foi um Ano Ruim ”. Li o livro de uma deitada só. O dia amanhecia e eu terminava as ultimas páginas. E o final, que final. Daqueles que você se segura pras lágrimas não rolarem no seu rosto. Desta vez a narrativa acontecia ao redor de Dominic Molise , um garoto que sonhava em ser jogador de beisebol. ...

MÚMIA NENÉM.

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A dinâmica do mundo é o terror. Somos nós, com o cérebro humano, que revestimos, reduzimos o terror a uma contemplação palatável. Para assim tornar a vida e sua abjeção intrínseca e assassina – possível. A crueldade é a colmeia onde habitamos. E a substância de nossos pensamentos, ou seja, (as palavras) o mel que a reveste – tudo ao inverso.  Tudo está exposto. A crueldade do amor – maquiada. O sexo de carnes e secreções (quase um esporro laboratorial) – desejado. O nascimento – o grito do ar incendiando o corpo – porque é com o grito humano que se celebra esta tragédia em direção ao aniquilamento. Nascemos crucificados no mundo.  Para os sábios a fórmula mágica de sobrevivência é aparentemente simples, mas exige convicção e treino: Mentiras afirmativas. Primeiro: recusar a ideia do suicídio. Depois alimentar a indiferença a tudo e a todas as coisas – como se existisse um plano, um destino imutável que nos comanda. Por último; usar a imaginação tal qual um mantra que...