sábado, 12 de fevereiro de 2011

O AMOR É UM CÃO VINDO DO INFERNO.

A primeira vez que li Charles Bukowski eu simplesmente detestei. Seu contos. Não imaginava como um dos ditos grandes escritores americanos podia escrever de uma forma tão egocêntrica e ainda assim influenciar milhões de pessoas em todo o mundo. Na época em que li seus contos eu não sabia ainda uma coisa sobre a vida que talvez continue não sabendo, mas pelo menos consigo sentir hoje.

E agora, depois de Ler “O Amor é um Cão dos Diabos”, quarto livro que leio do velho safado, é lógico que sei que Charles Bukowski sim, é um dos grandes escritores americanos. Sua forma de escrever despretensiosa inspira a escrever também, seus poemas sem preocupação de métrica, forma ou qualquer outra coisa do tipo, contam histórias, assim como seus contos, de bebedeira, perdas, poucos ganhos, algum amor, algum sexo. Bukowski querendo ou sem querer, escrevendo sobre si ou sobre o mundo, acabou dando voz e nome aos “perdedores”, pessoas que não encontram seu caminho neste mundo e ainda assim continuam a caminhar, porque isso é a unica coisa que sentem que tem a fazer. Pessoas que não se adequaram às linhas pré-determinadas já construídas muito antes de qualquer um vir, e ainda assim não dão o braço a torcer, criando pobremente, mas com coragem seus caminhos.

Em “O Amor é um Cão dos Infernos” a Editora Pocket publicou 303 páginas com poemas do velho beberão Bukowski, que em seus poemas escrevia sobre isso, beber, foder, amar, escrever, viver uma vida, mais do que tudo viver uma vida. Bukowski sabia que se deveria tentar ao escrever, mas não tanto a se convencer de que o que estivesse escrevendo fosse salvar o mundo mais que a si próprio. Sabia que tinha que escrever porque as palavras surgiam, e tentar, mas não tanto, e escrever procurando o grande poema, mesmo sabendo que este quase nunca viria.

Suas experiências com a bebida, sexo, a vida com mulheres que podem enlouquecer sua cabeça e deixar você na miséria, são contadas por Bukowski tanto com desespero como com calma. Uma calma de quem via tudo passar, e sabia que tudo iria passar, e só o que tinha que fazer era sentar, abrir uma cerveja, escrever um pouco sobre, abrir outra cerveja e beber mais um pouco.

Cerveja

Não sei quantas garrafas de cerveja

Consumi esperando que as coisas

Melhorassem.

Não sei quanto vinho e uísque

E cerveja

Principalmente cerveja

Consumi depois

De rompimentos com mulheres –

Esperando o telefone tocar

Esperando o som dos passos,

E o telefone nunca toca

Antes que seja tarde demais

E os passos nunca chegam

Antes que seja tarde demais.

Quando meu estômago já está saindo

Pela boa

Elas chegam frescas como flores de primavera:

“mas que diabos você está fazendo?

Vai levar três dias antes que você possa me comer!”

A mulher é durável

Vive sete anos e meio a mais

Que o homem, bebe muito pouca cerveja

Porque sabe como ela é ruim para a

Aparência.

Enquanto enlouquecemos

Elas saem

Dançam e riem

Com caubóis cheios de tesão.

Bem, há a cerveja

Sacos e mais sacos de garrafas de cerveja

E quando você pega uma

As garrafas caem através do fundo úmido

Do saco de papel

Rolando

Tilitando

Cuspindo cinza molhada

E cerveja choca,

Ou então os sacos caem às 4 horas

Da manhã

Produzindo o único som em sua vida.

Cerveja

Rios e mares de cerveja

Cerveja cerveja cerveja

O rádio toca canções de amor

Enquanto o telefone permanece mudo

E as paredes seguem

Paradas e estáticas

E a cerveja é tudo o que há.

Medo

Ele se aproxima do meu fusca

Depois que já estacionei

E segue pra lá

E pra cá

Rindo ao redor de seu

Charuto.

“Ei Hank, tenho reparado

Nas mulheres que têm frequentado

Sua casa ultimamente... Só coisa

Fina; você está fazendo seu trabalho

Direitinho.”

“Sam”, eu digo, “Isso não é

Verdade; sou um dos homens mais solitários

Que Deus pôs neste mundo.”

“Temos umas garotas bacanas no

Puteiro, você devia experimentar uma

Delas.”

“tenho medo desses lugares,

Sam, não posso nem entrar.”

“Eu lhe mando uma garota então,

Artigo de luxo.”

“Sam, não me mande uma puta,

Eu sempre me apaixono por

Elas.”

“Certo, amigo”, ele diz,

“Me avise se mudar

De idéia.”

Eu o vejo se afastar.

Alguns homens estão sempre

No controle do seu jogo.

Para mim, a maior parte do tempo

É confusão.

Ele pode partir um homem

Ao meio

E não sabe que é

Mozart.

De todo modo

Quem quer ouvir

Música

Numa noite chuvosa de

Quarta-feira?

Charles Bukowski - O Amor é um Cão dos Diabos – Love is a Dog fron Hell

Tradução de Pedro Gonzaga

Editora Pocket

303 páginas

7 comentários:

paularyana disse...

Sabe o mais irritante quando me vem à cabeça Bukowski? Seus imitadores brasileiros!! Bukowski tinha estilo, reconheço que tinha um senso de humor às vezes admirável, e seus imitadores não vão ter os seus próprios estilos se continuarem a idolatrar o cara e não ler outros autores.

M. disse...

Grande e bom post...

Do autor conheço algumas coisas...Não gosto dele como pessoa:) Demasiado convencido, o que lhe tira o lado genuíno...

Mas há piores:)

Carlos Alberto disse...

O primeiro livro que li do Bukowski foi um de contos, e realmente na época detestei, o achei convencido e sem nenhum senso de humor, umbigo total. O segundo livro que li foi um com diários, gostei muito, me identifiquei em muitos aspectos e passei a vê-lo de outra forma.

Como pessoa o velho safado deve ter sido um puta mau humorado. Como escritor, sim, tinha estilo, pra caramba. E existem muitos que tentam o imitar aqui no Brasil. De toda forma, sua escrita é inspiradora, não posso negar.

Ismael Angelus disse...

"Sua forma de escrever despretensiosa inspira a escrever também"

Isso sim é uma puta verdade.

Tive sorte de como primeiro livro dele ter pego o FACTOTUM que me fez dar altas gargalhadas dentro da topic quando eu ia pra faculdade. Depois estranhei os contos, daí tive alguma resistência como você caro Carlos. Chegando na poesia (exatamente este livro do post) já estava mais do que apaixonado por esse velho safado. Assisti ao "Born Into This" e pude ver além do fanfarrão típico o homem sensível que amava SIM as mulheres.
Como ele mesmo diz num dado momento:
"Esqueça a fama, eu tenho coração."

Caso não o tenha assistido (coisa que duvido) taí o link para que sorva um pouco mais:

http://www.megaupload.com/?d=9B1LQDLX

Ismael Angelus disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ismael Angelus disse...

Héeeeeeeeeeeee! =D

Carlos Alberto disse...

"Factótum" foi o quarto livro que li do Buk, e logo depois de ter lido Misto Quente, e nem sabia que era com o mesmo personagem. Gostei bastante.

Ainda não vi ao filme, valeu o link. Buk era mau humorado e beberrão, mas era um cara sensível também, dá sempre para ver isso em seus poemas.