quarta-feira, 23 de agosto de 2017

XENIA.

Meu tio se matou três dias antes do meu nascimento. Deu um tiro na cabeça com a arma velha e enferrujada que meu pai tinha comprado quando era moço. Minha mãe só ficava chorando, mas segurou firme. Me segurou firme por três dias. Então nasci.

Uma vez meu pai me perguntou por que eu tinha saído pra esse mundo, disse que era um lugar ruim de viver. Eu perguntei então porque ele tinha me colocado dentro da minha mãe.

Meus pais não se falavam muito. Meu pai quando bebia, me batia quando chegava em casa. Na escola, a maior parte dos garotos não gostavam de mim, muitos queriam me bater nos intervalos e no fim das aulas. Quase todos os dias eu tinha que enfrentar um cara que era maior que eu. Quase todos os dias eu tinha que provar que eu era mais forte do que os outros. Nem sempre eu vencia, mas batia neles também. Foi assim que começaram a me respeitar. Ou simplesmente começaram a esquecer de mim.

Comecei a roubar nos supermercados, colocava coisas pequenas dentro dos bolsos, dentro da bermuda, da camisa, e quando eles sacavam de me pegar eu corria feito um louco pelas ruas quase vazias ou às vezes lotadas.

Uma vez me pegaram, me levaram pra casa. Meus pais estavam lá. Não falaram comigo, não disseram nada. Era uma época ruim como qualquer outra, como todas as outras épocas de minha vida sempre foram. Meu pai estava sem trabalho, ficava em casa durante o dia, fumando, até que todo o dinheiro acabou e ele não tinha mais pro cigarro. Saiu e encontrou outro emprego. Era faxineiro em uma escola. Ele chegava em casa todo dia e dizia que odiava sua vida, que odiava seu trabalho, que preferia morrer, que queria morrer a continuar com aquilo, mas nunca fez nada como seu irmão fez, o que sempre me levou a pensar sobre a estranha necessidade que muitos de nós temos de continuar vivos, mesmo estando em situações nas quais nos sentimos completamente mortos por dentro.

O tempo foi passando e eu não sentia que estivesse mudando algo dentro de mim. Eu só passava meu tempo. Os garotos deixaram de me perturbar, mas eu não tinha amigos, ficava sozinho andando no pátio da escola enquanto os outros jogavam bola.

Um dia um garoto chegou falando que um tornado estava se movendo, que chegaria em nossa cidade naquela tarde. Ninguém nunca tinha visto algo assim, era só coisa de filme. Nós éramos crianças. Ficamos lá, depois da aula, esperando o tornado chegar.

24/10/2011 01:50

Andreas Duscha, Twister

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