Saio já quase duas da madrugada. Perdi o ônibus e agora só depois das 3 passa outro. Fico na parada. Acendo um cigarro. Vou ter que esperar mais de uma hora pra pegar o ônibus pra chegar em casa. Esse lado da cidade está acordado. No lado em que vivo, dormem. Do outro lado da rua um flanelinha toma conta dos carros dos ricos por algumas moedas. Anda pra lá e pra cá pra pegar água em uma torneira pra lavar os vidros dos carros com um pano sujo. Dou uma olhada nele, conheço esse cara de algum lugar, penso. Então me dou conta que não conheço, na verdade, mas o cara tem a cara do Daniel Galera. Já li uns livros. Fico fumando, esperando o tempo passar. E o Daniel lá, limpando os carros, pastorando, de olho nas moedas. Os minutos não passam, e pro tempo passar cruzo a rua e resolvo falar com o Galera. Realmente se parece. Ofereço um cigarro, ele aceita e agradece. Tento puxar conversa, o cara, fechado. Sou ruim de conversa também. Mas depois de um tempo, e uns cigarros dados, ele me fala qu...